Capitalismo, Patriarcado e Monogamia

(Por Loucas Lolli)

Nós humanos somos antes de qualquer coisa organismos vivos. Isso significa que temos duas funções básicas a cumprir: sobreviver e reproduzir. Porém, como além de seres vivos somos seres sociais, possuímos mecanismos para garantir um melhor desempenho dessas funções de maneira coletiva. E, como além de sociais somos seres culturais, esses mecanismos evoluem através da história para melhor antender as necessidades materiais vigentes, as quais transformamos com nossas próprias mãos ao longo da nossa evolução tecnológica.

O processo coletivo de garantia da sobrevivência, que compreende a busca por matérias-primas, o processamento destas e a sua distribuição, é o que chamamos de produção, ou economia. Da caça e coleta inventamos a agricultura e pecuária, a apropriação privada, passamos a utilizar a força de trabalho escrava, evoluímos para o feudalismo e daí para a atual exploração capitalista, cuja essência se encontra no fato de uma pequena parcela da população controlar os meios de produção (terras, fábricas, máquinas, matérias-primas etc), restando aos demais nenhuma opção exceto vender a sua força de trabalho em troca de um valor menor do que aquele que ela produz com a sua ação transformadora. A diferença entre esses valores é a mais-valia, a parte do trabalho que é apropriada pelo capitalista, conforme revelado por K. Marx em “O Capital”.

Porém, apesar de tratar com maestria da questão da produção, Marx esqueceu-se ou não teve tempo de tratar da questão da reprodução. Essa questão é em parte explorada por F. Engels em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”. Engels mostra como as mais variadas formas de organização familiar e reprodutiva existiram ao longo do tempo e do espaço, e aponta para a necessidade de certas formas terem se tornado norma em certos contextos devido a questões estruturais das sociedades. Em particular, o domínio patriarcal, assim como a propriedade privada, em um dado momento tornou-se uma norma em diversas sociedades, e expandiu-se até se tornar uma regra praticamente universal. O poder e as posses de cada núcleo familiar se concentrou assim nas mãos do patriarca, e a garantia de manutenção dessas posses na linhagem deste só era possível se a sua prole fosse reconhecida. Portanto, foi necessário restringir a liberdade sexual da mulher na instituição do casamento. Assim foi instituído em algumas sociedades o casamento monogâmico (porém com a ressalva implicita do heterismo: homens continuavam tendo relações fora do casamento e isso era aceito com naturalidade, porém a prole não era reconhecida) e em outras sociedades a poliginia (em que um homem pode esposar tantas mulheres quantas seja capaz de sustentar, mas a mulher só tem direito a esposar um marido). Ambos os casos têm como resultado prático a prisão da mulher a um único homem, pois é esse o elemento necessário para a manutenção da propriedade do patriarcal. Lembrando que, apesar de relações não-heterossexuais terem sempre existido de maneira significativa ao longo do tempo e do espaço, o casamento em si sempre foi por norma heterossexual dado que o seu objetivo primário é justamente o controle da reprodução e da herança.

A monogamia (ou, em algumas sociedades, a poliginia) é portanto o elo que sustenta unidos e funcionando, por um lado, um modo de produção baseado na propridade privada (atualmente o modo capitalista), e, por outro lado, o modo de reprodução patriarcal (em que poder e posses são transmitidos por linha paterna, restando às mulheres uma posição subalterna). Logo, a desconstrução da monogamia está irremediavelmente associada à superação desses dois elementos, e, por sua vez, a superação desses dois elementos também necessita inevitavelmente passar pela desconstrução da norma monogâmica. A não-monogamia é, assim, não apenas uma escolha pessoal ou uma questão ética fechada em si mesma, mas sim uma questão política que se conecta com a superação das injustiças mais profundas da sociedade.

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4 comentários sobre “Capitalismo, Patriarcado e Monogamia

  1. Ótima análise social sobre os três pilares que esmagam as mulheres e todxs aqueles que prezam pelo bom convívio. Gostaria de saber se existem grupos que se reunem para colocar em debates esses assuntos, certamente um encontro presencial iria nos possibilitar várias reflexões e aprofundamento neste tema tão essencial.

  2. Este texto contém alguns problemas. Ao afirmar “a desconstrução da monogamia está irremediavelmente associada à superação desses dois elementos” (patriarcado e capitalismo), implíca-se que a monogamia, e por conseguinte o patriarcado de onde adveio, seriam ESTRUTURAIS ao capitalismo. Outras correntes de pensamento libertários apoiam-se em argumentos similares: como que o machismo seria estrutural ao capitalismo, ou que não há capitalismo sem racismo. Mas o capitalismo só depende única e exclusivamente da exploração do humano sobre o humano, independente de gênero, origem etnica, sexualidade, etc. Se é verdade que ele foi construído se apoiando nas opressões (inclusive como ação consciente de elementos da burguesia para dividir a classe proletária), nada impede que ele perdure com a abolição das mesmas.

    O segundo problema que aponto no texto, ainda remete a essa primeira questão. Da forma com que foi construído, dá-se a entender que Marx e Engels chegaram a essa mesma conclusão que o autor do post. Não é verdade. Em momento algum os pensadores afirmaram que o patriarcado ou que a monogamia seriam elementos ESTRUTURAIS do capitalismo, e que acabando com eles, o capitalismo viria abaixo. Esse tipo de análise parece sedutora, mas é simplista, e não explica uma série de fenômenos recentes, como a cada vez maior dissolução dos núcleos familiares tradicionais, a ascensão de mulheres e LGBTs dentro do mercado de trabalho (i.e. a cooptação de movimentos pelo pensamento liberal e, consequentemente, pela lógica capitalista).

    No “Manifesto Comunista”, por exemplo, Marx e Engels afirmam que a “família” JÁ foi abolida, na prática, pela burguesia (principalmente no que toca a família proletária).

    Longe de querer manter o modelo social do século XVII, o sistema capitalista moderno opera transições e deslocamentos, mas sempre com a preocupação de que essas transições não alterem o eixo de poder da classe dominante. Assim, é necessário incorporar os setores oprimidos a novos paradigmas de exploração. Inclusive porque, ao colocar um negro na presidência americana, e, no nosso caso, uma mulher na presidência do Brasil, mantém a aparência de vivermos sob um regime democrático, em que todos tem oportunidades iguais.

    Engels afirma em “A Origem…”, que relações monogâmicas de verdade só poderão acontecer com a supressão do Capital. Ou seja, que relações monogâmicas dentro de um sistema capitalista são relações de PROPRIEDADE, de uma das partes sobre a outra. Que a “monogamia” historicamente só existiu para as mulheres. E que relações monogâmicas reais, isto é, que tem por base a liberdade só serão possíveis numa sociedade comunista.

    O centro para o autor nunca foi discutir se a monogamia EM SI é algo bom ou ruim (muito menos se a poligamia deveria ser um modelo a ser adotado), mas sim que existem relações DESIGUAIS, e que essas relações desiguais fazem parte de um modelo econômico-cultural que deve ser abolido.

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