Passe livre é pouco, amor livre já!

Nos últimos meses de meados de 2013, o movimento pelo passe livre e a luta pela tarifa zero no transporte público brasileiro ganharam projeção mundial com protestos massivos e intensos em todo o país. Mas, como dizíamos, não eram apenas 20 centavos o nosso problema. A insatisfação política chegou a níveis extremos e as pautas de luta foram várias. Entre as tantas, poderia ser o amor livre uma delas?

A proposta do passe livre tem sido há anos defendida por movimentos sociais e mais marcadamente pelo MPL, Movimento Passe Livre, organização anti-hierárquica e em rede, com baixo vínculo institucional e poucas relações com partidos e governos, que pensa a tarifa zero como mecanismo libertário de locomoção urbana. Junto com a população, pessoas libertárias de todos os matizes serão beneficiadas pelo passe livre (e já são, como em Agudos, no interior de São Paulo). A estratégia para isso comporta uma série de desobediências civis (pular catraca), confrontos com o poder público e ações diretas na base do fazer-a-gente-mesmo, ainda que a intenção seja fazer com que o governo faça alguma coisa. Porque o passe livre é uma proposta que depende de conquistas junto ao poder público, através da iniciativa de governos municipais e leis nos diversos níveis que tornem o transporte coletivo gratuito para o povo. Ou seja, apesar de se organizar autonomamente, o MPL depende da heteronomia estatal para realizar seus fins: uma reforma na economia e na política públicas.

O que o amor livre pode ter a ver com isso, então?

Amor livre é o nome genérico que se costuma dar para diversas práticas de amor, relacionamento romântico ou sexual, envolvimento pessoal intenso e terno – ou fugaz porém respeitoso das subjetividades envolvidas –, casamento aberto e outros modos e maneiras que discordam da monogamia compulsória. Amar livremente é poder amar e deixar amar uma ou mais pessoas sem restrições impostas.

Curiosamente, como o passe livre, ainda que alheio às manifestações de massa, o tema do amor livre também tem chamado atenção no debate público atual nos últimos meses e anos, aparecendo até em programas de TV. Houve um crescimento de comunidades virtuais em redes sociais eletrônicas (como as dedicadas ao Poliamor e às Relações Livres, duas correntes distintas de relacionamentos não-monogâmicos), eventos sociais e festivos e o acaloramento dos debates sobre o tema em meios políticos radicais, gerando publicações (por exemplo, a coletânea De Amor e Anarquia – Relações Libertárias Ontem e Hoje – Editora Deriva, 2012).

Ao contrário do transporte público, o amor parece estar, a princípio, associado somente à esfera íntima. O amor parece caber simplesmente à iniciativa de quem o pratica.
Entretanto, o amor livre encontra uma série de “catracas”, barreiras sociais e estatais, que precisam ser compreendidas, criticadas, burladas, confrontadas ou eliminadas.
Afinal, o casamento monogâmico tem sido um dos pilares da organização do Capitalismo, fundamento da propriedade e da herança, recalcador do prazer que acaba encontrando sua sublimação no consumismo desenfreado que alimenta o Capital – pessoas insatisfeitas em suas relações com outras pessoas procuram satisfação em suas relações com as coisas. Além disso, o casamento monogâmico está associado ao machismo e a outras formas de opressão de gênero, a determinações religiosas e a uma série de regras que não são somente civis ou legais. Quem ama livremente pratica não só a desobediência civil, mas também a desobediência moral.
Uma desobediência que é bem diferente da trapaça que o machismo aplica na monogamia (fazendo vista grossa às puladas de cerca masculinas), porque a trapaça visa manter as regras do jogo (da monogamia) e a desobediência não quer essas regras e tenta mudá-las jogando. Se o trapaceiro às vezes se torna herói, aquele que se deu bem, quem desobedece as regras do jogo chamam de “estraga prazeres”. Ironicamente, acreditamos que estraga prazeres é a própria monogamia compulsória.
Confrontar-se com a moral e com as regras que nos constituem como pessoas envolve conflitos não só com terceiros e com quem se relaciona mas também da pessoa consigo mesma: é preciso questionar o sentimento de propriedade sobre quem se ama, aprender a lidar com o ciúme sem impedir a liberdade alheia, saber viver simultaneamente relações dotadas de características diversas. E aceitar relacionamentos que acabam juntando, direta ou indiretamente, mais de duas pessoas. No limite, a prática do amor livre pode levar à constituição de famílias diferentes do padrão dominante.
Já as leis brasileiras que regem a união estável entre parceiros que compartilham uma vida amorosa tornam o casamento monogâmico quase um fim obrigatório. Burlar tal compulsão depende da boa vontade libertária das pessoas envolvidas, confiando umas nas outras e evitando levar seus problemas aos tribunais. Contudo, nem sempre isso depende só delas, principalmente quando as uniões envolvem outras pessoas através de herança, divisão de bens, guarda de crianças, sobretudo caso a família conservadora de uma ou mais pessoas envolvidas não concorde com o amor livre.

Desse modo, parece que a luta pelo amor livre, assim como a luta pelo passe livre, além da estratégia da desobediência, também pode comportar a estratégia do reformismo e da mudança nas leis.
Leis que permitam a união estável entre mais de um cônjuge (formando um trisal, por exemplo), ou que permitam a criação de uniões estáveis de uma pessoa com duas ou mais (intersecção de dois ou mais casais) não são teoricamente impossíveis. Uma equação bem feita pode dar conta disso, considerando que, para a tradição liberal, o contrato faz lei entre as partes. Este é o caso da primeira união estável entre duas mulheres e um homem, realizada em agosto de 2012 no município de Tupã (São Paulo), considerada uma união poliafetiva. Em Recife (Pernambuco) já foi concedida a guarda compartilhada, com direito a registro e cuidado, de uma criança por três pessoas adultas, uma forma de adoção poliafetiva.
Essas reformas poderiam conter até um germe revolucionário, pois tais uniões acabariam gestando, contra a acumulação de Capital, modos de difusão de posses entre pessoas diversos daqueles da tradição ocidental moderna.
Se tantas alterações nas leis brasileiras de união civil têm sido feitas e aceitas no último punhado de anos (por exemplo, já é possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo), parece oportuno que praticantes do amor livre também defendam mudanças legais que lhes possam de algum modo favorecer: casar simultaneamente com mais de uma pessoa, por exemplo.

Enfim, passe livre e amor livre envolvem várias formas de ação direta e fazer-a-gente-mesmo, mudanças de comportamento na própria vida pessoal, pulando várias “catracas”.
O amor livre, especificamente, demanda um compromisso pessoal, uma mudança de comportamento e de crenças íntimas, uma transformação na vida doméstica mais intensa, mais direta e vivida. Tratar o doméstico como político, o íntimo como coletivo.
Pular catracas no transporte público, não pagar passagens, fazer catracaços etc. são ações diretas muitas vezes cotidianas, não sendo as únicas estratégias da luta pelo passe livre, outras que envolvem tanto o confronto direto com o poder público quanto a aliança com este poder, gerando as reformas que são o objetivo do movimento.
Quem ama livremente depende de uma prática diária intensa e pula “catracas” invisíveis, mas não menos duras: couraças e travas íntimas; moralismo; preconceito, maledicência e vigilância de vizinhos, família, colegas e a incompreensão de pessoas queridas. É uma luta que se realiza em si mesma: praticar o amor livre já é o amor livre. Aí as reformas são complementares, não essenciais.
O amor livre é tanto meio quanto fim de sua luta, não precisa esperar que o poder público tome uma atitude. A luta pelo passe livre se aproxima do amor livre quando transforma seus fins em meios, praticando formas gratuitas, coletivas, solidárias e libertárias de locomoção ou mudando as regras enquanto jogam o jogo.

Enfim, não são só umas ou outras mudanças nas leis. Lutamos para viver nossas vidas do jeito que quisermos. Seja para transitar livremente, seja para amar livremente. A luta pela liberdade é a mesma, uma favorece a outra. Pois é muito mais fácil visitar um amor que mora longe pegando um ônibus de graça do que pagando para isso…

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11 comentários sobre “Passe livre é pouco, amor livre já!

  1. O MPL depende da heteronomia popular, de rua, para pressionar o Estado e assim trazer autonomia quando a população não depende de $ para se locomover e assim continuar a construir a luta por mais autonomia!

    Amor e passe livre já!!

    1. Salve, lunar anárquica querida! Concordo com a segunda parte do que diz, mas não sei se concordo coma primeira. O que quer dizer heteronomia popular? O MPL é popular, né? Quando coloco o foco na prática direta, no meio da ação já ser também um fim, não separo militante e povo.

  2. Olá Gui!

    As ações do MPL não tem fim em si mesmo. Incentivamos a pular a catraca, por exemplo, mas isso não muda muita coisa; é uma forma de burlar akilo que repudiamos e gerar debate no meio onde se faz a ação, assim como os protestos de rua. Mas essas ações são quase inócuas sozinhas. É preciso também debater e construir juntxs um projeto que indique o que queremos, como queremos, ao mesmo tempo em que se reivindica (pulando catraca, furando tubo, colando cartazes, formando núcleos nos bairros, etc) – esse plano popular.

    O MPL, como qualquer outro movimento SOCIAL – intrinsicamente popular – depende da união e responsabilidade das pessoas, e que sejam muitas pessoas, pra conquistar algo. Minha definição por povo, no contexto do meu comentário, significa pessoas que simpatizam com a causa. Tem muuuuitos simpatizantes do MPL . No entanto, poucas dessas pessoas vão se envolvendo cada vez mais na luta, entendendo a necessidade de se aprofundar um pouco mais nos debates e de protagonizar a política autônoma… Acabam se tornando militantes a medida que se dedicam à causa dentro de suas possibilidades, tendo uma relação mais intensa com a ideologia/prática.

    Explikei?

    1. Concordo com quase tudo do que diz! Mas pular catraca não é um “fim em si mesmo” no sentido reducionista da coisa. Em se tratando de movimento organizado, quanto mais gente pulando catraca, melhor. Inclusive é muito mais fácil pular catraca coletivamente, como nos catracaços ocorridos nos protestos de junho (o famoso Inverno Brasileiro). E quem já catracou em dias normais e cotidianos sabe que há um mínimo de solidariedade necessária para isso, quem passa na frente tem de deixar a catraca no jeito para quem vem atrás, as vezes é uma fila inteira! No Chile as pessoas nos ensinam a não pagar busão… Não confunda desobediência civil com individualismo… Da mesma forma, no amor livre, quanto mais gente pulando as catracas do amor ao invés de pular cercas, melhor, vai se criando uma rede e uma presença social maior. Movimento político em rede. Mas, sem dúvida, eu não pretendo salvar da perdição aqueles que optam por não participar, apesar de incentivar aqueles que estão a fim e de fazer propaganda, sim! Enfim, a desobediência praticada amplamente rechaça a servidão voluntária coletiva e cria uma prática de revolta permanente, uma revolução permanente. Beijo, queridona!

      1. Só vai haver esses atos em massa se tiver trabalho de conscientização do porquê é interessante fazer isso, pois há uma super educação ensinando o contrário. Por exemplo, muita gente chamava os pula-catraca de vândalos; depois de explicarmos que isso é um ato político reinvindicando o direito ao transporte, elas compreenderam e por mais que não pulem catraca, defendem quem pula.

        O que quero dizer é que não existe só uma frente, ou que uma é mais importante que a outra, mas que as frentes tem que caminhar juntas pra realmente ameaçar nosso inimigo comum.

        (sei que vc tá longe de fazer referência a isso mas “revolução permanente” é trotskismo…)

  3. Novamente concordo com a maioria do que diz, Luacaos! Mas “revolução permanente” foi expressão de Proudhon e de outros anarquistas bem antes de Trotski, ehehe…

    1. Tá em textos dele sobre a revolução e também em outros. É uma idéia de que a história é uma revolução permanente, isso tá no texto “Um brinde à revolução”, que tem trechos publicados em português em coletâneas. Mas também tem um lance de que a revolução política também precisa ser permanente, mas não lembro onde. Proudhon tem uma obra vastíssima não traduzida para o português graças ao monopólio marxista.

  4. Acho um tanto prolixo o termo “Amor livre”, o amor não tem precedentes, o amor é a própria liberdade. E existem milhões de formas de amar e que cada pessoa que AMA, exerça a liberdade de escolher.

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