Diferenças entre Poliamor e Relações Livres – delineando alguns conceitos

Quando entrei em contato pelas primeiras vezes com o universo da não-monogamia descobri logo que havia diferentes formas e “vertentes”, cada qual com suas especificidades práticas e suas singulares concepções ético-políticas. Para começar, acho interessante pontuar que existe uma enorme diferença entre a cultura não-monogâmica da contemporaneidade ocidental e a tradicional poligamia das culturas orientais ou antigas. Na poligamia tradicional a objetificação da mulher e a assimetria de poder entre as pessoas da relação são claras, a forma mais usual é a do homem que possui um “harém”, ou seja, que é casado com várias mulheres e possui uma espécie de direito de propriedade sobre elas.

Para nós, não-monogâmicxs (evitamos, inclusive, usar “poligamia” como sinônimo de não-monogamia), é da mais fundamental importância que todxs xs envolvidxs na relação estejam cientes e de acordo, por livre e espontânea vontade, com a configuração que ela assume ou assumirá. Honestidade e transparência são básicos. Pois bem, dado que estas são semelhanças fundamentais entre xs não-monogâmicxs, façamos uma tentativa de refinar melhor alguns outros conceitos. Existem, como eu havia dito, diversas formas de não-monogamia, entre as quais podemos destacar o poliamor, as relações livres (RLi), o swing e as relações abertas. Neste texto me limitarei a falar do poliamor e do RLi (futuramente poderemos abordar as outras).

Tive dificuldades em entender o que é poliamor por bastante tempo, mas nas conversas que tive com poliamoristas e depois de algumas leituras, o que ficou compreendido para mim é que poliamor é uma forma de não-monogamia onde existe uma infinidade de possíveis formas e configurações de relacionamento sexual-afetivo entre várias pessoas, duas ou mais, definidas pela explicitação de regras consensuais (e mutáveis). Xs parceiros envolvidos decidem como será o relacionamento por meio de muito diálogo, deixando claro a todo momento o que é confortável ou seguro para cada um(x) e que concessões e demandas serão aceitas – isto é o que elxs chamam de “acordos”.

As configurações possíveis de relacionamento poliamoroso podem ir das mais abertas e horizontais até aquelas que incluem polifidelidade (acordo de que haverá exclusividade de envolvimento sexual-afetivo entre um número limitado de parceirxs) ou hierarquia entre relacionamentos (ex: primário e secundário). Na prática, isso resulta no fato de que poliamoristas podem possuir dois, três ou mais namoros/uniões (ou outros nomes que cada grupo escolhe) com número indeterminado de pessoas. Inclusive a maioria dxs xs adeptxs do poliamor não se opõem ao casamento, pelo contrário, há aquelxs que reivindicam o direito de se casar com mais de uma pessoa.

Do ponto de vista político o poliamor não tem nenhuma posição definida enquanto movimento, surgiu internacionalmente nos anos 1990 definindo-se apenas como um estilo de vida não-monogâmico (“poliamor” é tradução de “polyamory”), de maneira que existem poliamoristas de quaisquer opiniões e orientações políticas possíveis.

O RLi é, assim como o poliamor, uma forma consensual de não-monogamia, mas possui algumas especificidades. RLis não negociam sua liberdade sexual-afetiva, o único imperativo de nossos relacionamentos é o desejo (sexual e/ou afetivo) e, assim, não há regras ou acordos de nenhum tipo. Não existe, jamais, hierarquia entre os relacionamentos e todos são necessariamente abertos. O grau de intimidade, a duração e a configuração de cada relação são determinados única e exclusivamente pelos sentimentos e emoções que se conjugam entre xs parceirxs, nos deixamos guiar pela atração sexual, a paixão ou o amor e julgamos que comportamentos derivados destes sentimentos e sensações não são passíveis de nenhum tipo de regulamentação.

A autonomia emocional e financeira de cada RLi é necessária pra que as relações se concretizem sem que sentimentos de insegurança e medo as invadam e sem que isso resulte em ciúme ou posse – é da mais fundamental importância eliminar a noção de direito de propriedade privada que subjaz as relações monogâmicas, xs companheirxs relacionam-se ou deixam de fazê-lo porque assim desejam e não por causa de obrigações supostas por alguma moral ou por direito sobre o outro. Não dividimos nem subtraímos nada de ninguém, não exigimos que parceirxs nos completem ou deem conta de nossas angústias, enxergamos as relações como soma e doação, como cooperação e companheirismo e isso vale tanto para alguém com quem nos envolvemos por algumas horas quanto para alguém com quem estamos há anos, já que todo contato humano é uma experiência única e valiosa.

RLis pautam-se pela defesa da liberdade sexual e amorosa incondicional e empreendem uma crítica contundente às estruturas patriarcais, portanto são firmemente contra o casamento e contra qualquer forma de monogamia ou mononormatividade – posições ético-políticas que derivam da constituição original do RLi enquanto movimento social, não só como estilo de vida pessoal. Ademais, todx RLi é, necessariamente, feminista, posto que defendemos que a liberdade deve ser a mesma para pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais, do contrário não é liberdade, e posto que é primordial combater a cultura do estupro e adquirir a sensibilidade do respeito tanto ao “sim” quanto ao “não”. Observamos, portanto, que o RLi é também uma política, em geral próxima de posições mais libertárias, cujas pautas e ideias originais surgiram com o Coletivo Rede de Relações Livres de Porto Alegre há mais ou menos 10 anos (sim, o RLi é “made in Brazil”).

Bom, este assunto é extenso e eu pincelei vários outros temas complexos aqui que merecem textos à parte. Para finalizar, eu gostaria só de dizer que, do ponto de vista das experiências pessoais, cada um opta pelo tipo de relacionamento com o qual se sente melhor, não cabendo a ninguém dizer que esta ou aquela forma é intrinsecamente mais adequada que a outra. Todos nós estamos numa situação semelhante, à margem de uma cultura ainda completamente mononormativa e patriarcal que o estilo de vida não-monogâmico desafia.

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21 comentários sobre “Diferenças entre Poliamor e Relações Livres – delineando alguns conceitos

  1. Yasmin sou poliamorista e enfim, concordo em MTS pontos coma definição de Poliamor vinda de um (a) RLI. Apenas não concordo com essa parte: ” Do ponto de vista político o poliamor não tem nenhuma posição definida enquanto movimento, surgiu internacionalmente nos anos 1990 definindo-se apenas como um estilo de vida não-monogâmico (“poliamor” é tradução de “polyamory”), de maneira que existem poliamoristas de quaisquer opiniões e orientações políticas possíveis.” . Na realidade, pelo menos aqui no Rio de Janeiro mts polis entendem o Poliamor, principalmente, como uma questão política. N é apenas um estilo de vida… é um fenômento concreto que estamos vendo acontecer e que gera valores e sim, modos de viver e se relacionar mt diferentes da monogamia e tb de outros relacionamentos n monogâmicos. Defendemos a liberdade sim, mas tb a solidariedade, o companheirismo e a amizade entre as pessoas. Lutamos por uma sociedade aonde amor, liberdade e organicidade estejam de ” mãos dadas”.

    1. Sharlem, massa, eu entendi o que tu falou. Na realidade eu pessoalmente acho que TODAS as nossas escolhas e comportamentos tem consequências políticas, na medida em que afetam as pessoas à nossa volta de uma maneira ou de outra. Nesse sentido, com toda certeza uma decisão como romper com a monogamia é em si um ato político. Quando digo que o poliamor não tem posição política definida estou dizendo que não existe uma EXPLICITAÇÃO de pautas políticas concretas do poliamor enquanto movimento social. Qualquer pessoa legitimamente RLi vai ser contra o casamento e contra a desigualdade de gênero, por exemplo. Pelo que conversei com polis, há sim pessoas poliamoristas engajadas (e em pautas até semelhantes às do RLi), mas o poliamor, na sua totalidade, como movimento, não tem pautas claramente definidas, necessárias e intrínsecas ao próprio conceito de poliamor… (pelo menos é o que eu entendo).

      1. Yasmin eu diria que nós não temos uma ética estrita como os RLIs (inclusive entendemos os RLIs como polis!) até pq não somos um grupo que buscou se organizar e aglutinar pessoas dentro de uma visão pré-definida, etc. É como eu disse antes, o Poliamor está aí.. está acontecendo, não foi a Pratique ou qualquer outro grupo que o criou. O que nós fizemos foi, a partir da existência concreta de pessoas polis por aí, buscar agrupá-las e entender o processo social que levou o poliamor a existir. Por isso ele é tão múltiplo, tão diverso e existe de tantas formas e arranjos. Contudo, como você mesma disse, existem os polis que estão engajados e militando em defesa do Poliamor, e nesse universo, defendemos SIM, a abolição da desigualdade de gênero, os direitos civis do casamento mono para os ” casamentos” polis, o direito de que qualquer pessoa possa ser registrada com mais de dois genitores (não importando o sexo), a não discriminação pela opção de ser poli em todos os âmbitos da sociedade, etc. Ou seja, lutamos contra a opressão de qualquer forma e grau que os Poliamoristas sofrem ao assumirem a ” identidade poli ” perante a sociedade. Fora tudo isso, existe ainda os que, como eu, são taxativamente, contra a monogamia por entender que essa forma de relacionamento prejudica o desenvolvimento do ser humano e da sociedade de conjunto.

  2. Sharlenn, eu também acho que RLi é uma forma de poliamor, mas isso não é geral e não podemos enquadrar um grupo que se diz diferente (é o mesmo que quando alguém RLi diz que poli é só uma forma disfarçada de mono). Então eu simplesmente não entro nessa discussão sobre categorizações, porque se RLis se afirmam como outro grupo, acho que isso deve ser respeitado.

    Não encontrei (ainda) um grupo muito organizado de poli no Brasil. Estou fazendo o blog, mas interrompi por causa dos protestos e tou com uns rascunhos ainda no forno esperando meu tempo voltar a existir. De qualquer forma, consegui tomar um gás e estou fazendo um texto pra cá com a mesma temática a partir de um ponto de vista poli. Está em discussão no grupo de editores do blog. Se tiver mais gente disposta a escrever sobre o assunto é só entrar em contato que a gente vai conversando e de repente constrói um blog de referência poli pra cá…

  3. Eu pessoalmente, dentro de uma leitura e vivência histórica, prática e teórica sobre o assunto insisto nessa diferença em relação ao RLi se colocar como movimento político e anti-capitalista enquanto que o Poli busca uma saída individual para a questão da monogamia, sem questionar que não existe fim da monogamia dentro dos marcos do capitalismo, sem lutar contra as opressões, etc etc etc. Eu não tenho nada contra os Polis, de verdade, mas vejo essa diferença, ainda que eu conheça pessoas polis que são militantes e que se posicionam contra o sistema, o poliamor em si não enxerga a coisa dessa forma.
    Eu não estou querendo polemizar, vejam bem, só trazer uma reflexão. Porque eu penso que temos que começar a encarar toda essa necessidade intrínseca de quebra da mononormatividade como uma questão política e que tem que ser aliada das lutas contra o machismo, contra a homofobia, contra o racismo (porque olha, minhas amigas negras que tenta se aventurar neste campo sofrem muito mais!) e também contra o capitalismo ao invés de construirmos saídas confortáveis somente pra gente. Temos que levar o debate pra sociedade, para as organizações políticas e lembrar que a monogamia é a base do machismo e deve ser combatida e não só negada como escolha pessoal.

  4. Gostava de dar seguimento ao que a Sharlenn disse, mas também acrescentar algumas coisas.

    Em termos de prática política, e aceitando que “o pessoal é político”, parece-me que, como disse ‘amoreslivres’, a saída de uma estrutura mono-normativa já é algo bastante político. Em termos de práticas explícitas, creio que não é legítima a comparação entre uma identidade (poliamor) [e aqui, julgo que não podemos sequer falar de uma comunidade, porque há relativamente pouco contacto continuado e frequente entre diferentes comunidades poliamorosas por esse mundo fora] a um grupo específico e localizado no espaço e no tempo, com dimensões relativamente pequenas (RLi). Tendo dito isto, existem vários grupos poliamorosos que estão de facto envolvidos com várias frentes de movimentos sociais (desde participarem da organização de Marchas do Orgulho LGBT, ou até ajudarem a fundarem-nas, como em Lisboa e no Porto (Portugal), até organizarem um “Polyamory Day” (Reino Unido), passando por desfilar junto com várias marchas pela diversidade (São Francisco – EUA) e reunirem recursos para ir a tribunal contestar leis anti-poligamia que os afectariam, mobilizando todo um país de pessoas poliamorosas para isso (Canadá). Assim sendo, a prática de actos políticos está patente em vários grupos poliamorosos – esses sim comparáveis directamente ao RLi.

    Gostaria de ver uma fonte para a asserção de que “a maioria dxs xs adeptxs do poliamor não se opõem ao casamento”, já que na minha experiência pessoal, e de falar com muita gente poly, se verifica exactamente o oposto.

    Quanto à ligação entre poliamor e feminismo – ela é tensional, mas continuo a afirmar que está lá. A ênfase na negociação, a contestação do duplo padrão sexual e até mesmo o enfoque na ideia de que os sentimentos são um tópico digno de consideração (algo considerado da ‘esfera feminina’ durante muito tempo) – são indicadores de que existe uma influência de valores feministas na retórica poliamorosa, o que não quer dizer que se fale explicitamente de feminismo, ou que toda a gente se identifique enquanto feminista. Por outro lado, a investigação que existe mostra que as formas mais hegemónicas de masculinidade são, na prática, pouco compatíveis com a convivência em grupos poliamorosos.

    Passando a outra parte do texto, creio que existem contradições internas ou talvez faltas de clareza na linguagem usada sobre como se apresenta a RLi.
    Por exemplo:
    “RLis não negociam sua liberdade sexual-afetiva, o único imperativo de nossos relacionamentos é o desejo (sexual e/ou afetivo) e, assim, não há regras ou acordos de nenhum tipo.”
    Ora, utilizar o desejo como “imperativo dos nossos relacionamentos” é o estabelecimento de um acordo, de uma regra. Se alguém se recusar a usar o desejo dessa forma, está a quebrar o acordo e portanto terá de sair do grupo ou acabará a desidentificar-se com ele.
    Logo abaixo se diz:
    “Não existe, jamais, hierarquia entre os relacionamentos e todos são necessariamente abertos.”
    Isto é também uma regra, um acordo, que estrutura (e com toda a legitimidade, claro; não estou a fazer uma crítica) a identidade do grupo (e portanto também quem tem ou deve estar fora do grupo).
    Ora, a própria entrada no grupo e aceitação ou não dos ideais do grupo constitui em si uma negociação (ainda que, na sua forma mais restrita, esta seja apenas do sujeito consigo mesmo e do sujeito com as suas próprias restrições culturais introjectadas) da “liberdade sexual-afectiva” dos sujeitos. Até porque, ao nível da consensualidade, não existe consensualidade sem negociação, ainda que essa negociação seja “apenas” uma clarificação dos limites de cada pessoal envolvida.
    Assim sendo, a inexistência de regras é, a meu ver, um factor de distinção inválido entre poliamor e RLi. Um factor de distinção teria de ser formulado de outra maneira: enquanto que as pessoas poliamorosas adoptam uma multiplicidade de regras, variáveis no espaço e no tempo, negociáveis caso-a-caso, RLi implica uma estrutura de regras fixas, invariáveis, que devem ser aceites por todas as pessoas, mas que simultaneamente permitem uma enorme diversidade de práticas efectivas.

    Alguns temores que tenho ao ler o texto, mas que não são necessariamente a intenção de quem o escreveu ou de quem faz parte do grupo, e sim reflexões possíveis a partir do texto:

    1 – que se adopte uma visão demasiado optimista e simplificada das relações interpessoais. Dito de outra forma: não é por eu me chamar a mim mesmo “livre” que isso faz de mim uma pessoa mais livre. Ainda que esteja disposto a lutar contra a mono-normatividade capitalista, posso ter que precisar de ter um emprego (e assim gerar e possuir propriedade privada) e posso acabar a sentir ciúmes ou insegurança no contexto de alguma relação minha. Colocar o elemento da liberdade e individualidade como um fait-accomplit cria uma pressão posssível para que se ignorem ou silenciem discursos sobre a existência bem real desses sentimentos, criando-se assim uma distinção entre quem é digno/capaz de ser um ‘verdadeiro’ RLi e quem não é. Por outro lado, a liberdade absoluta é sempre um horizonte inalcançável: temos corpos, temos língua, temos educação, temos contexto social, etc…, tudo coisas que interagem com a nossa autonomia e estamos invariavelmente imbricados em relações de poder (recorro aqui a uma noção foucauldiana de “poder”, em que o poder não é algo que alguém TEM, mas sim algo que duas ou mais pessoas FAZEM na sua inter-relação; e o poder não é um objecto, mas um fluxo, que pode correr com um caudal equilibrado entre duas ou mais pessoas, ou ser uma torrente quase uni-direccional que esmaga alguma delas, sendo que esse fluxo está em constante mutação) que correm o risco de ser tornadas invisíveis pela declaração performativa “sou livre” ou “estou numa relação livre”.

    2 – que se adopte uma visão demasiado discriminatória e redutora da monogamia e do poliamor. Convém não esquecer que uma pessoa numa relação ‘RLi’ não está necessariamente melhor nem pior equipada para lutar contra o patriarcado capitalista do que uma pessoa numa relação monogâmica ou poliamorosa. A não-monogamia não é inerentemente mais libertadora do que a monogamia – o que importa não é o modelo relacional que se segue, mas o modo como esse modelo é posto em prática. Eu posso ser não-monogâmico de forma totalmente normativa e posso ser monogâmico de forma totalmente subversiva. É extremamente arriscado posicionar certas formas de viver e sentir como sendo mais poltiicamente emancipadas que outras, porque (opinião pessoal agora) TUDO é passível de ser comodificado, capitalizado e retransformado em material que alimenta a estrutura neo-liberal presente. Do mesmo modo, também não é exacto colocar RLi do lado da acção política e poliamor do lado do “estilo de vida”, pelas razões colocadas acima, e pela noção de um “estilo de vida” é também uma ferramenta política.

    3 – que se crie uma nova normatividade – a RLinormatividade, ou assim! – que dite que existe apenas UMA versão politicamente responsável, emancipada ou esclarecida de fazer e sentir amor/desejo/sexo/intimidade. Este fenómeno já acontece há bastante tempo junto de várias comunidades poliamorosas, e posso deixar aqui alguns links para a questão da polinormatividade (que é tanto a noção de que o poliamor é superior à monogamia, como a noção de que existe apenas UMA forma correcta de ‘fazer’ poliamor), se quiserem. A manutenção de um espaço de diversidade implica também a existência de uma auto-crítica constante contra a possibilidade de normalização/normatividade de tudo o que se faz, sob a noção de que até mesmo a melhor prática do mundo, a partir do momento em que é feita por uma questão de repetição e não de reflexividade, perde a sua capacidade crítica e portanto impacto político.

    1. Daniel, como foi dito no texto, alguns assuntos foram esboçados sem que houvesse aprofundamento, pois não cabia ao propósito do texto. Creio que em postagens futuras várias incompreensões que você demonstrou no seu comentário serão mais bem esclarecidas.

      1. Então talvez fosse melhor, a partir desses esclarecimentos futuros, reformular este texto, ou criar uma segunda versão, que mais facilmente pudesse servir como ponto de base para comparações (tanto de diferenciação como de aproximação) entre estas diferentes identidades.
        🙂

    2. Daniel e todxs,

      Neste tipo de discussão, o uso cuidadoso da linguagem é vital para minimizar a confusão. Um dos maiores perigos consiste no uso de palavras com múltiplos significados. As palavras “regra”, é até mesmo “acordo”, estão entre elas. Você critica o texto dizendo que as RLi também têm “regras”, ou “acordos”, mas você está usando esses termos com sentidos bem diferentes quando fala de poliamor e quando fala de RLi.

      No primeiro caso, eles significam “exigência de limitação da liberdade de relacionamento alheia”, algo que pessoas estabelecem entre si e esperam umas das outras que seja honrado como um trato ou conjunto de normas de conduta, e que pode vir em formas variadas. Essas “regras”, nesse primeiro sentido de “trato”, limitam as ações das pessoas, e uma ação que transcenda tal trato é considerada um desrespeito e uma desonestidade.

      No segundo caso, os mesmos termos “regra” e “acordo” significam “definição”, simplesmente a traduação de uma palavra, que é algo fixo. É o “acordo” da sociedade em entender o que significa uma certa palavra. Uma definição não limita as ações das pessoas. Ela simplesmente diz se uma palavra se aplica ou não a uma dada pessoa. Se a pessoa tem uma ação que não está de acordo com essa definição, ela não está quebrando um trato previamente estabelecido e desrespeitando alguém ou sendo desonesta, mas simplesmente deixando de se enquadrar na definição.

      Uma pessoa adepta das RLi é *definida* como alguém que não exige *limitações de liberdade de relacionamento* às demais. A existência dessa exigência (ainda que consensual) é, portanto, não apenas *um*, mas *o* fator de distinção entre poliamor e RLi. Uma pessoa que exija tal sacrifício de outrem está simplesmente caindo fora da *definição* de RLi, assim como uma pessoa que não admita uma relação poliamorosa está caindo fora da definição de poli. O que existe no poliamor e não existe nas RLi é um certo grau de limitação das *ações* das pessoas, as “regras” no primeiro sentido (de trato). As “regras” no segundo sentido, o de definição, existem igualmente para ambos os termos, poliamor e RLi, bem como para qualquer outro termo da língua.

      A sua qualificação do poliamor como “flexível” e das RLi como “rígidas” está portanto equivocada. O que é rídiga é a definição de RLi, assim como qualquer definição, inclusive a de poliamor. Mas em termos das ações que as pessoas podem tomar, as RLi são o mais flexíveis possível: as pessoas podem tomar qualquer ação, enquanto no poliamor elas estão sujeitas a tratos limitadores (ainda que cambiáveis).

      1. Lucas, desde já obrigado pela resposta.

        Tenho algumas objecções a levantar.

        A primeira, é que de facto não estou a usar definições diferentes de regra e acordo, muito pelo contrário. Explico em seguida, já que…

        A segunda objecção é ao uso moralmente carregado de uma definição de “acordo” que supostamente implique “exigência de limitação”, porque pressupõe que de um lado, estão limitações obrigatórias e do outro lado não. Ora, tal não é empiricamente sustentável em todos os casos: por um lado, porque alguém pode ter um acordo poliamoroso que não limite de forma alguma aquilo que deseja fazer; por outro, porque a visão “definicional” de ‘acordo’ limita o nível segundo o qual cada vontade e liberdade pessoal pode ou não ser apresentada como válida (ou seja, é possível adoptar uma versão agressiva de “Ou aceitas isto, ou cais fora”).

        A terceira objecção vem de olhar para uma versão “deficinional” de ‘acordo’ como sendo algo de moralmente abstracto, nem bom nem mau. E aqui cito: “Uma definição não limita as ações das pessoas.” – acho que uma das lições que podemos tirar do trans*-feminismo é precisamente o quanto uma definição pode limitar as acções das pessoas (e o que acontece a quem «sai fora» da definição). Isto liga-se à…

        Quarta objecção, a ideia de que “a definição de poliamor é rígida”. Muito pelo contrário, a definição de poliamor está constantemente a ser revista e debatida e, para bem ou para mal, existem várias definições do que é poliamor, existem várias práticas poliamorosas e existem também critérios de exclusão e de *discriminação* baseados em definições mais ou menos ‘apertadas’ do que poliamor quer dizer.

        Por fim, não creio ser factualmente correcto dizer que alguém RLi “não exige limitações da liberdade de relacionamento às demais” – exige, de facto, a limitação não-negociável de alguém que pretenda ser monogâmicx e não tem a legitimidade de o ser, sem ser considerado como politicamente inferior, menos esclarecido, etc. Para recuperar as suas palavras, pretender ter uma relação monogâmica num contexto RLi também me parece que seria “um desrespeito e uma desonestidade” para com as pessoas envolvidas.

        Como adenda, duas coisas: sugiro que se use uma versão de acordo que seja menos moralmente carregada (socorro-me aqui do dicionário Priberam – ” Harmonia entre pessoas ou coisas. = CONCÓRDIA, ENTENDIMENTO; Combinação (ajustada entre duas ou mais pessoas). = PACTO), de forma a não se hierarquizar definicionalmente o poliamor como sendo ‘assim’ e RLi como sendo ‘assado’.

        A segunda adenda é que, na prática, existem variadíssimas situações em que é literalmente impossível distinguir uma relação poly de uma relação RLi, a não ser pela auto-identificação que as pessoas possam fazer de si mesmas. O que faz com que tentar encontrar um ponto de clivagem radical entre as duas coisas me pareça um exercício com utilidade relativa e aplicabilidade limitada. Como já disseram acima, parece-me muito mais útil tentar perceber os pontos de contacto e sinergia.

      2. Daniel e todxs,

        Também agradeço a cordialidade.

        Concordo plenamente que “tentar encontrar um ponto de clivagem radical entre as duas coisas” é “um exercício com utilidade relativa e aplicabilidade limitada” e que a necessidade de união em torno dos “pontos de contacto e sinergia” é imperativa. Estou seguro de que estamos, incluindo xs autorxs do texto e demais comentadorxs, partindo da nossa base comum para explorar detalhes avançados e relevantes da discussão, e não sectarizando.

        Portanto, respondendo às suas objeções, parece-me que mais uma vez a linha central do debate parte de uma questão de terminologia. Percebo isso mais claramente na sua frase: “pretender ter uma relação monogâmica num contexto RLi também me parece que seria “um desrespeito e uma desonestidade” para com as pessoas envolvidas”.

        O ponto crucial é que RLi significa não demandar privações, ou pactos (obrigado pelo termo acurado) das demais pessoas. Não demandar pactos não é um pacto, pois é uma opção individual, que envolve apenas a própria pessoa. E, portanto, diferentemente dos pactos, essa opção não precisa ser bi (ou multi) lateral. Eu posso ser RLi (não demandar nada dxs outrxs), mas me relacionar com pessoas que não são RLi, e portanto demandam pactos de mim.

        Voltando, portanto, à sua frase, estou entendendo que por “contexto RLi” você quer dizer uma situação envolvendo duas ou mais pessoas onde todas optam por ser RLi, ou seja, não demandam pactos umas das outras.

        Nesse caso, se por “relação monogâmica” você quer dizer a *escolha* individual de uma pessoa de relacionar-se apenas com uma certa outra pessoa, isso certamente não é uma desonestidade nem um desrespeito num contexto RLi, mas apenas uma das infintas escolhas que essa pessoa pode fazer num tal contexto.

        Por outro lado, se por “relação monogâmica” você quer dizer a *demanda* de uma pessoa de que determinada outra pessoa não se relacione com mais ninguém além dela, isso tampouco é uma desonestidade ou um desrespeito num contexto RLi, simplesmente porque tal situação não se encontra num contexto RLi (a primeira pessoa não optou por ser RLi). Isso de todo modo não quer dizer que a segunda pessoa não possa ser RLi, nem que tal relação não possa acontecer caso ela seja, nem que exista alguma desonestidade envolvida de alguma forma nessa relação caso ela aconteça.

        P.S.: Concordo que o termo “RLi”, por ser derivado da expressão “relações livres”, dá a idéia de qualificar relações, e não pessoas. O que tenho visto, porém, é que de fato se o usa na forma “tal pessoa é RLi”, uso que tenho feito e com base no qual estou debatendo aqui. Podemos também discutir se por conta dessa confusão seria melhor buscar novos termos.

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