Não existe relação livre sem responsabilidade afetiva

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“O que eu deveria fazer com tudo isso [emoções]?!”
Muito falamos em liberdade e autonomia quando se trata de pensar as relações não-monogâmicas, mas há outra ideia que é tão central quanto a de liberdade para que a gente possa construir concretamente nossas redes de relacionamentos de um jeito que possamos ser honestos e abertos uns com os outros quanto à maneira como sentimos e vivemos nossa sexualidade: a de responsabilidade. Ela é tanto mais necessária quanto mais adentramos a realidade das relações livres entre pessoas que carregam as cicatrizes emocionais das agressões cotidianas que vivenciam por serem mulheres, negras, LGBTs (ou as três coisas juntas, como no meu caso…). Nesse texto pretendo apresentar algumas reflexões bem gerais sobre liberdade e responsabilidade afetivo-sexual nas relações livres e tentar dar algumas indicações sobre o que isso significa na prática.

Me parece que durante muito tempo o conceito de liberdade imbuído nos discursos a respeito das relações livres foi um conceito estritamente individual e, por que não, liberal. Eu mesma já rebati muitas vezes essa crítica, mas devo admitir hoje, depois de mais algumas leituras e mais alguns anos de vivência não-monogâmica, que de fato jamais se deixou claro o suficiente que quando estamos falando de liberdade devemos ter em conta a liberdade coletiva, não individual. A grande utopia por trás do ideal das relações livres é a dissolução da família nuclear patriarcal tal como nós a conhecemos hoje em nossa sociedade, em direção à construção de fortes laços afetivo-sexuais, de intimidade, segurança e confiança, que ultrapassem as limitações estreitas da tríade papai-mamãe-filhinho.

O modelo familiar nuclear é virtualmente incestuoso do ponto de vista afetivo, justamente por causa dessas limitações, que não deixam aos indivíduos muitas opções de investimento afetivo-sexual em outras figuras que não os seus pais, daí a velha história psicanalítica do triângulo de Édipo (penso aqui com Reich, Deleuze-Guattari e Foucault). O problema disso é que junto com a triangulação edípica vem certo modo de subjetivação liberal/patriarcal, que certamente tem suas alternativas aqui e ali mas que se insinua persistentemente na nossa cultura. De modo muito geral, o mundo em que vivemos dificulta o desenvolvimento de laços afetivos mais comunitários que poderiam oferecer outros modos de subjetivação também mais voltados para a produção de vida coletiva e não de vida privada, e em parte essa dificuldade é posta pelo encapsulamento das famílias nucleares dentro de seus dramas internos. O advento do divórcio, dos direitos LGBT, dos direitos das mulheres em geral e as monoparentalidades tem flexibilizado esse modelo, enquanto as relações livres se acrescentam de maneira mais direta e radical a essas mudanças pois visa em última instância descaracterizar a família nuclear até que já não haja sentido em falar em família propriamente dita, at all. Mas a grande questão é que pra que o modelo utópico das relações livres se realize de fato é necessário pressupor uma transformação radical de todo o sistema socioeconômico em que vivemos, as nossas relações não serão realmente livres enquanto nós mesmos não formos. E que não haja ilusão, não somos livres no capitalismo.

Até que ponto, a nível individual, podemos “desconstruir” (palavra que acho detestável…) essas determinações dos nossos modos de nos relacionarmos? Conseguiremos não ser tão auto-centrados, exercitar a empatia, o cuidado, a responsabilidade para com as pessoas com quem nos envolvemos? Uma vez que a liberdade é compreendida como coletiva e não individual, o que significa falar de relações “livres”? Vejam o quanto é problemática uma afirmação como a da Rede Relações Livres RS: “Nossa maior dificuldade é que esta visão [RLi] pressupõe pessoas muito livres, não possessivas e não ciumentas”. Há pessoas que são “muito livres” e outras que não são? Em seguida afirmam que a nossa cultura se opõe por todos os lados à concepção das relações livres, com o que eu concordo, mas arrematam o pequeno parágrafo dizendo que na Rede RLi/RS é fácil encontrar essas pessoas muito livres.

Para as mulheres é muito difícil fazer disso uma jogada de marketing pessoal, enquanto a sociedade se servir abundantemente do slut-shaming, mas justamente por isso temos que deixar para trás esse discurso da “pessoa muito livre”, como se ser livre fosse uma característica individual de personalidade de gente muito especial. Parece que estamos nos vendendo como produtos cuja qualidade “ser muito livre” nos colocaria em vantagem “no mercado”. Quem se beneficia disso são os homens cis, bons que são em fazer das ideias e práticas mais revolucionárias novas formas de velhas opressões. É aquele discurso do nice guy, desconstruído, “livre”, mas que entende liberdade como “eu faço o que eu quero e você não tem nada com isso” e em nome do seu direito à liberdade mais uma vez comete todo tipo de abusos com as pessoas com quem se relaciona. Mas nós não ganhamos nada com isso, o marketing não nos serve. Mais grave que isso, ele reforça a redução de toda nossa afetividade ao nível individual, como se a partir do momento que carimbamos na testa “pessoa livre” fôssemos obrigadas a nos virar de qualquer jeito para lidar com as nossas dores e inseguranças, uma vez mais sozinhas, e como se as mulheres com quem nos relacionamos não passassem por algo semelhante (lembremos Audre Lorde, ainda que as nossas correntes sejam diferentes, o fato é que há correntes).

Tristes tempos em que é necessário dizer o óbvio, mas relacionamento pressupõe no mínimo mais uma pessoa. Podemos e devemos pedir ajuda a essa(s) pessoa(s), podemos e devemos ajudá-la(s). Relação livre não é relação superficial, sem vínculo e sem responsabilidade: essas coisas fazem parte daquilo do que queremos nos ver livres. Aderir às relações livres significa compreender, ouvir, cuidar, respeitar, enfim, assumir a responsabilidade pelo que fazemos tendo em conta que nossas ações vão afetar, às vezes profundamente, as pessoas que estão conosco. É todo esse o ponto: não precisarmos esconder ou reprimir nossa sexualidade, poder ser transparentes em relação às nossas intenções e desejos, humanizar as relações tirando-as da lógica do mercado ou do crivo do Estado. Vejamos a questão do ciúme, por exemplo, que sempre aparece: é impossível não sentir ciúme, ele é muito diferente da posse e, frequentemente, para as mulheres tem mais a ver com uma insegurança bem fundamentada do que com alguma paranoia de controle possessivo. Estatisticamente falando, não somos nós que matamos ou espancamos por causa da perda, possível ou real, de pessoas que tratamos como objetos de posse, mas mesmo assim somos nós as taxadas de ciumentas histéricas. Mais uma vez, essa lógica masculina não nos serve – especialmente numa relação entre duas mulheres, podemos depor as armas contra a possessividade, a questão é outra (mas é claro que quando de fato uma de duas mulheres que estão num relacionamento estiver por ventura reproduzindo um comportamento machista vale mobilizar alguma ajuda para ambas). Uma mulher negra que tem medo de ser preterida em favor de uma mulher branca está em todo o seu direito e razão de questionar seu companheiro ou companheira quanto a isso – na realidade talvez esse medo nem devesse ser chamado de ciúme. Mulheres trans, mulheres neuroatípicas, mulheres que tem filhos e diversos outros casos e situações de mulheres que tem demandas específicas não devem ser simplificados. É muito comum trazermos muita bagagem para as nossas relações, isso deve ser compreendido com cuidado. Liberdade não é o oposto de responsabilidade afetiva, ao contrário, conjugar as duas coisas é estritamente necessário para que as relações livres sejam na prática o que elas pretendem ser na teoria: uma possibilidade de emancipação e não mais uma forma de opressão.

 

Não-monogamia: formatos vs. ideologias

525520_2945450523927_1132506454_n(Foto: Nubia Abe)

Muito se fala nos debates sobre não-monogamia acerca dos diferentes “formatos” existentes: poliamor, relação aberta, swing etc. Uma impressão comum é de que as diferenças estão apenas nas cláusulas, e que todos estão do mesmo lado quando o assunto é dizer não à monogamia. Já a impressão que eu gostaria de transmitir aqui é a de que, muito mais dos que cláusulas e formatos, o aspecto relevante são as ideologias por trás de cada proposta que se auto-intitula não-monogâmica, e que há uma cisão radical em torno desse ponto.

O swing, em que tipicamente um casal monogâmico participa de relações sexuais não-afetivas com outras pessoas, porém sempre juntos, e a relação aberta, em que membros de um casal monogâmico acordam poder ter relações com outras pessoas (com todo tipo de cláusula, tipicamente só permitindo relações sexuais não-afetivas e longe da presença do outro membro) estão muito mais próximas de uma tentativa de “salvar” a monogamia, ou, na melhor das hipóteses, “incrementá-la”, do que de fato entender o seu papel opressor e erradicála. Já o termo poliamor é, segundo declarações de muitas das próprias pessoas que o reivindicam, bem pouco definido. Nota-se, porém, que o movimento foca na possibilidade de relações sexuais envolvendo vínculo e profundidade afetiva com mais de uma pessoa, o que o distingue do swing e da relação aberta, onde o vínculo para além do casal é tipicamente tabu, ou onde há pelo menos uma forte tendência de preservação do caráter “afetivamente superior” da relação “primária” a dois. Uma coisa bastante reafirmada dentro do poliamor é a possibilidade de existência de todo tipo de cláusula limitadora, incluindo a chamada “polifidelidade” (onde não são permitidas relações fora do “núcleo”), e que por vezes não são simétricas, e podem mesmo reproduzir opressões existentes na sociedade. De fato, o poliamor, pelo seu caráter de não comprometimento político, acaba formando uma massa bastante heterogênea. Se por um lado há dentro do movimento pessoas que se reivindicam feministas, anticapitalistas e militantes das mais diversas causas, e relações bastante cuidadosas quanto a questões de poder e opressão, não há também nada que impeça uma relação poliamorosa de carregar todos os fardos da monogamia e do patriarcado, incluindo o machismo, as cobranças, a dependência emocional etc. Em suma, o que se pode dizer do poliamor é que a proposta pretende obter uma extensão quantitativa a partir da monogamia (i.e. aumentar o número de pessoas com quem se pode relacionar profundamente), porém não necessariamente questionar nenhum dos seus aspectos qualitativos.

Uma outra proposta, que ganhou o nome de relações livres, se diferencia de todas as demais por não ter como ponto de partida a ideia de salvar, melhorar ou mesmo se opor à monogamia. Na verdade, da forma como vista por mim e outras pessoas, o ponto de partida está bem longe disso, e a oposição à monogamia surge apenas como consequência. A premissa aqui é: destruir o patriarcado. Ou, em outras palavras: “não queremos que o homem cis hétero continue dominando o mundo e oprimindo todas as outras pessoas”. Para isso é necessário empoderar as mulheres, as pessoas trans, as pessoas sexo-diversas, e daí surgem naturalmente todas as pautas do feminismo, transfeminismo, movimentos de diversidade sexual e, de quebra, uma negação enfática à monogamia, que na sua essência é uma prisão que o patriarcado impôs às mulheres para preservar a propriedade privada nas mãos dos homens (um resumo sobre isso aqui). Enxergando a monogamia dessa forma, como um dos instrumentos de opressão impostos pelo patriarcado, é natural que a proposta não seja estendê-la ou melhorá-la, mas sim destruí-la.

Logo, a proposta das relações livres, ao contrário de todas as demais, é política em primeiro lugar, derivando diretamente da oposição ao patriarcado e à propriedade privada. Não se propõe simplesmente um novo formato, mas sim uma nova ideologia. É verdade que aqui estão inclusas as premissas éticas de que toda relação deve ser consensual, de que nenhuma pessoa tem o direito de intervir na liberdade sexual e afetiva de outras e de que nenhuma pessoa tem o dever de satisfazer as expectativas de outras. Também é verdade que aqui se incentivam as pessoas a serem autônomas e não dependerem, emocionalmente ou economicamente, de outras. Porém, esses pilares éticos não estão à deriva, mas firmemente ancorados num pensamento anti-patriarcal e anticapitalista, como resposta a um contexto social onde os homens cis hétero dispõem de mais meios para garantir a sua independêcia econômica, intelectual e emocional, além do direito de intervir na liberdade alheia, violar a consensualidade e não responder pelos seus atos, enquanto as mulheres estão sujeitas a toda forma de violação, cobrança e repressão, sendo pressionadas ou mesmo forçadas a depender emocionalmente e economicamente de um homem, e onde pessoas trans, não-binárias e sexo-diversas estão marginalizadas e vulneráveis a ódio e violência. Por isso, o cuidado é necessário o tempo todo dentro de cada relação para que não se reproduzam as opressões da sociedade, atentando à interseccionalidade das questões sexuais e de gênero com outros tipos de opressão. Não basta apenas tratar todas as pessoas igualmente, é necessário empoderar as pessoas oprimidas. A contraposição à norma monogâmica imposta socialmente, com todas as injustiças, violências, dependências e limitações que ele contém, é apenas uma das frentes de luta nesse processo. E tudo isso sem negar as particularidades de cada relação e as infinitas possibilidades de vínculo, sexualidade e afetividade que podem ser construídas.

 

Capitalismo, Patriarcado e Monogamia

(Por Loucas Lolli)

Nós humanos somos antes de qualquer coisa organismos vivos. Isso significa que temos duas funções básicas a cumprir: sobreviver e reproduzir. Porém, como além de seres vivos somos seres sociais, possuímos mecanismos para garantir um melhor desempenho dessas funções de maneira coletiva. E, como além de sociais somos seres culturais, esses mecanismos evoluem através da história para melhor antender as necessidades materiais vigentes, as quais transformamos com nossas próprias mãos ao longo da nossa evolução tecnológica.

O processo coletivo de garantia da sobrevivência, que compreende a busca por matérias-primas, o processamento destas e a sua distribuição, é o que chamamos de produção, ou economia. Da caça e coleta inventamos a agricultura e pecuária, a apropriação privada, passamos a utilizar a força de trabalho escrava, evoluímos para o feudalismo e daí para a atual exploração capitalista, cuja essência se encontra no fato de uma pequena parcela da população controlar os meios de produção (terras, fábricas, máquinas, matérias-primas etc), restando aos demais nenhuma opção exceto vender a sua força de trabalho em troca de um valor menor do que aquele que ela produz com a sua ação transformadora. A diferença entre esses valores é a mais-valia, a parte do trabalho que é apropriada pelo capitalista, conforme revelado por K. Marx em “O Capital”.

Porém, apesar de tratar com maestria da questão da produção, Marx esqueceu-se ou não teve tempo de tratar da questão da reprodução. Essa questão é em parte explorada por F. Engels em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”. Engels mostra como as mais variadas formas de organização familiar e reprodutiva existiram ao longo do tempo e do espaço, e aponta para a necessidade de certas formas terem se tornado norma em certos contextos devido a questões estruturais das sociedades. Em particular, o domínio patriarcal, assim como a propriedade privada, em um dado momento tornou-se uma norma em diversas sociedades, e expandiu-se até se tornar uma regra praticamente universal. O poder e as posses de cada núcleo familiar se concentrou assim nas mãos do patriarca, e a garantia de manutenção dessas posses na linhagem deste só era possível se a sua prole fosse reconhecida. Portanto, foi necessário restringir a liberdade sexual da mulher na instituição do casamento. Assim foi instituído em algumas sociedades o casamento monogâmico (porém com a ressalva implicita do heterismo: homens continuavam tendo relações fora do casamento e isso era aceito com naturalidade, porém a prole não era reconhecida) e em outras sociedades a poliginia (em que um homem pode esposar tantas mulheres quantas seja capaz de sustentar, mas a mulher só tem direito a esposar um marido). Ambos os casos têm como resultado prático a prisão da mulher a um único homem, pois é esse o elemento necessário para a manutenção da propriedade do patriarcal. Lembrando que, apesar de relações não-heterossexuais terem sempre existido de maneira significativa ao longo do tempo e do espaço, o casamento em si sempre foi por norma heterossexual dado que o seu objetivo primário é justamente o controle da reprodução e da herança.

A monogamia (ou, em algumas sociedades, a poliginia) é portanto o elo que sustenta unidos e funcionando, por um lado, um modo de produção baseado na propridade privada (atualmente o modo capitalista), e, por outro lado, o modo de reprodução patriarcal (em que poder e posses são transmitidos por linha paterna, restando às mulheres uma posição subalterna). Logo, a desconstrução da monogamia está irremediavelmente associada à superação desses dois elementos, e, por sua vez, a superação desses dois elementos também necessita inevitavelmente passar pela desconstrução da norma monogâmica. A não-monogamia é, assim, não apenas uma escolha pessoal ou uma questão ética fechada em si mesma, mas sim uma questão política que se conecta com a superação das injustiças mais profundas da sociedade.

Esclarecendo Pontos Sobre o RLi

"Sem liberdade não é amor - RLi-SP"
“Sem liberdade não é amor – RLi-SP”

(Por Carol Marques)

Me identifico como pessoa não-monogâmica que vivencia relações livres e sei que no meio de muita informação truncada são ditas coisas como se fossem “regras padrão” das relações livres que não correspondem à realidade. Esse texto é para esclarecer as confusões mais comuns, mas ele pode ser atualizado e melhorado caso surjam outros desentendimentos a serem sanados.

1. “O RLi cabe dentro do conceito do poliamor?” – Cabe, mas cabe porque esse conceito de poliamor é extremamente amplo, abarcando desde polifidelidade até relações sem regras pré-determinadas. O RLi, ao contrário tem definições éticas e políticas bem claras, não é qualquer relação não-monogâmica que envolva amor que poderá ser entendida como relação livre.

2. O RLi é feminista por princípio e essência, ele visa colaborar para a libertação sexual e emocional da mulher, uma vez que os homens cisgêneros heterossexuais sempre tiveram essa liberdade e autonomia garantidas.

3. “RLi são apenas relações sem vínculo” – Isto é mentira, pessoas RLi mantêm relacionamentos com vínculos muito fortes e duradouros, embora possam ter relações sem vínculo também.

4. O RLi é contra acordos que se estabeleçam como forma de coibir a liberdade e autonomia dx outrx. Acordos comuns em relações poli como a mulher (bi) só poder ficar com outras mulheres, preferencialmente acompanhada do companheiro (hétero) são entendidos como cláusulas machistas que colocam a sexualidade da mulher a serviço do companheiro, bem como os famosos “caçadores de unicórnios” (casais que buscam uma terceira pessoa para se relacionar efetiva e/ou sexualmente, mas apenas com os dois juntos). A relação pode ou não ter acordos se as partes assim desejarem, mas é mantido um alerta sobre acordos limitadores de liberdade e autonomia, que coloquem a vontade de uma das pessoas da relação sob controle de outras.

5. “RLi é contra você morar junto de quem você ama” – Isto também não é verdade. O RLi é contra a instituição do casamento, o amor romântico e a família nuclear, que constituem a base da sociedade burguesa capitalista e também da opressão à mulher, relegando-a ao espaço doméstico, subalterna ao homem. Diversas pessoas RLi moram com companheirxs e isso não é nem nunca foi um problema.

6. “RLi proíbe a expressão pública de afeto entre companheirxs” – Isso é absurdo e totalmente descabido, expressões sinceras de afeto jamais seriam condenadas. Manifestações que visem “demarcar território” sobre parceirxs, especialmente de homens sobre suas companheiras mulheres, como formas a inibir outrxs de uma aproximação, são vistas como possessivas e machistas.

7. “RLi prega o individualismo” – O movimento prega a autonomia, que é uma condição de não dependência entre as partes que se relacionam. Essa autonomia é voltada principalmente às mulheres, para que não se vejam presas a relacionamentos por não terem condições de se manter sozinhas ou por uma profunda dependência emocional. A dependência financeira é o principal fator para mulheres permanecerem em relações abusivas, daí esta autonomia ser tão incentivada. O companheirismo nos relacionamentos é essencial, inclusive para se auxiliar x parceirx a sair de uma situação de dependência emocional ou ajudar para q elx nunca entre nesta situação. Se querer livre é também querer livre aos outros.

8. “RLi tem caráter neoliberal” – Fico na dúvida se esse tipo de afirmação que algumas pessoas fazem resulta de falta de entendimento ou de má fé (tendo a crer este último). O RLi é declaradamente anticapitalista, buscando uma liberdade coletiva, e não liberal.

O RLi não tem um livrinho de regras de conduta, tem princípios éticos bem definidos que visam a liberdade coletiva, em especial a liberdade e autonomia da mulher, dentro dos grupos, atitudes machistas e discriminatórias não são aceitas sob hipótese nenhuma, o que incomoda muitos tipos conhecidos por nós como “machos libres”, que tentam se utilizar dos grupos como cardápio de fodas grátis, ignorando totalmente a autonomia das mulheres e objetificando-as.

Por último, já vi (homens cis hétero) acusarem grupos RLi de terem uma postura misândrica, por não aceitarem que eles se coloquem da forma que bem entendem nestes espaços. Misandria não existe, não é uma opressão social, isso faz tanto sentido quanto racismo reverso e heterofobia. Misandria no máximo é falta de paciência com macho besta que não aceita ser repreendido em espaços feministas (e todo grupo RLi é um espaço feminista) quando faz besteira.

Monogamia (Casamento) – Por Ana Bock

A monogamia surgiu para controlar a sexualidade das mulheres
A monogamia surgiu para controlar a sexualidade das mulheres

A tradição se impõe porque é uma herança dos antepassados. (…) Quando se passam muitas gerações e a regra estabelecida perde essa referência de origem (o grupo de antepassados), dizemos, então, que essa regra social foi institucionalizada. A monogamia — o casamento somente entre duas pessoas — pode ser considerada uma instituição. Essa regra social – casamento monogâmico- foi institucionalizada devido a perda do referencial de origem (grupos de antepassados) dessa tradição. É sabido que as sociedades primitivas não a conheciam. Os casamentos eram poligâmicos. A monogamia surge, então, na Grécia antiga e no Oriente Médio com o estabelecimento da propriedade privada e a descoberta da paternidade biológica. Entre os povos primitivos, o papel de pai era atribuído ao irmão materno mais velho; as famílias eram matrilineares (baseadas na linhagem materna) e, provavelmente, imperava o matriarcado. No início do modo de produção escravagista da organização social antiga (como foi o caso da Grécia), o surgimento das cidades, da propriedade privada e a descoberta da paternidade biológica colocavam o homem da época diante de uma questão: a herança. As pessoas (no caso, os homens) que acumulavam riquezas durante sua vida não tinham para quem deixá-las. A família paterlinear e o casamento monogâmico foi a forma de organização encontrada que definia, claramente, uma maneira de perpetuar a propriedade através da herança. O filho passou a ser o herdeiro dos bens paternos. Para isso, estes homens proprietários passaram a estabelecer, como regra, que suas mulheres deveriam manter relações sexuais somente com eles próprios (em função da descoberta do funcionamento da paternidade biológica) e, assim, teriam certeza de que o filho lhes pertencia. Hoje, qualquer pessoa de nossa sociedade ocidental, se questionada sobre a monogamia, dirá que o casamento se dá desta forma porque “é natural”. Curiosamente, ainda hoje temos culturas, como a muçulmana, que não adotam a monogamia como regra e, apesar dessa evidência contrária, alguém de nossa cultura continuará considerando a monogamia natural. A este fenômeno chamamos de instituição.

Trecho retirado do livro “Psicologias – Uma introdução ao estudo de psicologia”, Capítulo 15: “Psicologia institucional e processo grupal”.

Ana Bock é psicóloga e presidente do Conselho Federal de Psicologia.

O fantasma do amor romântico nas relações livres

Por que só posso pensar em morar junto, construir uma vida junto, ter planos pro futuro, adotar crianças, constituir um lar ou família, exclusivamente, com pessoas com quem eu faça sexo? E se duas ou mais pessoas se gostam tanto que decidem entrelaçar suas vidas, morar sob o mesmo teto e até dividir a cama, elas precisam necessariamente fazer sexo? E se em algum momento elas fazem sexo porque gostam, e depois de um tempo o desejo sexual de alguma das partes se vai, mas elas querem continuar compartilhando suas rotinas, elas precisam continuar fazendo sexo pra manter a estrutura da vida conjunta?

Por que chamamos uma pessoa importante na nossa vida, mas com quem não fazemos sexo, de amiga, e uma pessoa com quem fazemos sexo de companheira, parceira ou “alguém com quem me relaciono”? Por que uma pessoa com quem faço sexo se sente inferiorizada se a chamo de amiga? E por que é estranho chamar alguém com quem não faço sexo de companheiro, pareceiro ou “alguém com quem me relaciono”? Sem sexo não há relacionamento? Não há companheirismo, confiança, intimidade, ajuda mútua, partilha, aprofundamento?

O sexo tem que ser assim tão determinante no grau de profundidade e no caráter geral de uma relação? Precisamos chegar ao ponto de clivar as relações entre “com sexo” e “sem sexo”, usando nomes diferentes pra cada? Por que, em vez disso, não dividimos nossas relações entre “com afinidade política” e “sem afinidade política”, ou então entre “com conversas profundas” e “sem conversas profundas”, ou ainda entre “com gosto artístico parecido” e “sem gosto artístico parecido”? Por que, acima de todas as outras características, especificamente a presença do sexo define a forma de se relacionar?

Sim, é fato que essas construções já estavam no mundo quando chegamos, mas precisamos perpetuar essa história?

É natural que o sexo ajude a fortalecer outros vínculos, e o problema não é esse. O problema é que continuamos a acreditar que o sexo, e só o sexo, possibilita, e de fato obriga, uma forma diferente de amor, mais sublime, superior, mais verdadeiro. Desse modo, pessoas heterossexuais só podem amar “de verdade” pessoas do sexo oposto, e pessoas homossexuais só podem amar “de verdade” pessoas do mesmo sexo. Mais do que isso: dentro dessa lógica, só me é permitido amar “de verdade” alguém que pertença àquela pequena parcela da humanidade que eu considero atraente sexualmente. Ou então, pior ainda, eu tenho a obrigação de sentir atração sexual por qualquer pessoa que eu ache extremamente importante na minha vida, e apenas por essas pessoas. Sentimento profundo e sexo são fundamentalmente indissociáveis dentro desse contexto. Não há sexo sem amor, e não há amor “verdadeiro” sem sexo.

Ora, que amor é esse? Esse é o amor de Shakespeare, Goethe, Hollywood e Disney. É o amor que já vem com fórmula pronta, lotado de expectativas, cobranças e “a prioris”, que só fazem sentido na monogamia compulsória. Não é o amor que queremos. Ao menos, não é o amor que eu quero. O amor que eu quero não vem formatado, e é diferente pra cada pessoa na minha vida.

No latim, “amor” e “amica/amicus/amicum” vêm do mesmo radical. Amigo é algúem que se ama. Todas as pessoas que eu amo são minhas amigas. Em alguns casos há sexo, em outros não. E isso não determina nada.

Passe livre é pouco, amor livre já!

Nos últimos meses de meados de 2013, o movimento pelo passe livre e a luta pela tarifa zero no transporte público brasileiro ganharam projeção mundial com protestos massivos e intensos em todo o país. Mas, como dizíamos, não eram apenas 20 centavos o nosso problema. A insatisfação política chegou a níveis extremos e as pautas de luta foram várias. Entre as tantas, poderia ser o amor livre uma delas?

A proposta do passe livre tem sido há anos defendida por movimentos sociais e mais marcadamente pelo MPL, Movimento Passe Livre, organização anti-hierárquica e em rede, com baixo vínculo institucional e poucas relações com partidos e governos, que pensa a tarifa zero como mecanismo libertário de locomoção urbana. Junto com a população, pessoas libertárias de todos os matizes serão beneficiadas pelo passe livre (e já são, como em Agudos, no interior de São Paulo). A estratégia para isso comporta uma série de desobediências civis (pular catraca), confrontos com o poder público e ações diretas na base do fazer-a-gente-mesmo, ainda que a intenção seja fazer com que o governo faça alguma coisa. Porque o passe livre é uma proposta que depende de conquistas junto ao poder público, através da iniciativa de governos municipais e leis nos diversos níveis que tornem o transporte coletivo gratuito para o povo. Ou seja, apesar de se organizar autonomamente, o MPL depende da heteronomia estatal para realizar seus fins: uma reforma na economia e na política públicas.

O que o amor livre pode ter a ver com isso, então?

Amor livre é o nome genérico que se costuma dar para diversas práticas de amor, relacionamento romântico ou sexual, envolvimento pessoal intenso e terno – ou fugaz porém respeitoso das subjetividades envolvidas –, casamento aberto e outros modos e maneiras que discordam da monogamia compulsória. Amar livremente é poder amar e deixar amar uma ou mais pessoas sem restrições impostas.

Curiosamente, como o passe livre, ainda que alheio às manifestações de massa, o tema do amor livre também tem chamado atenção no debate público atual nos últimos meses e anos, aparecendo até em programas de TV. Houve um crescimento de comunidades virtuais em redes sociais eletrônicas (como as dedicadas ao Poliamor e às Relações Livres, duas correntes distintas de relacionamentos não-monogâmicos), eventos sociais e festivos e o acaloramento dos debates sobre o tema em meios políticos radicais, gerando publicações (por exemplo, a coletânea De Amor e Anarquia – Relações Libertárias Ontem e Hoje – Editora Deriva, 2012).

Ao contrário do transporte público, o amor parece estar, a princípio, associado somente à esfera íntima. O amor parece caber simplesmente à iniciativa de quem o pratica.
Entretanto, o amor livre encontra uma série de “catracas”, barreiras sociais e estatais, que precisam ser compreendidas, criticadas, burladas, confrontadas ou eliminadas.
Afinal, o casamento monogâmico tem sido um dos pilares da organização do Capitalismo, fundamento da propriedade e da herança, recalcador do prazer que acaba encontrando sua sublimação no consumismo desenfreado que alimenta o Capital – pessoas insatisfeitas em suas relações com outras pessoas procuram satisfação em suas relações com as coisas. Além disso, o casamento monogâmico está associado ao machismo e a outras formas de opressão de gênero, a determinações religiosas e a uma série de regras que não são somente civis ou legais. Quem ama livremente pratica não só a desobediência civil, mas também a desobediência moral.
Uma desobediência que é bem diferente da trapaça que o machismo aplica na monogamia (fazendo vista grossa às puladas de cerca masculinas), porque a trapaça visa manter as regras do jogo (da monogamia) e a desobediência não quer essas regras e tenta mudá-las jogando. Se o trapaceiro às vezes se torna herói, aquele que se deu bem, quem desobedece as regras do jogo chamam de “estraga prazeres”. Ironicamente, acreditamos que estraga prazeres é a própria monogamia compulsória.
Confrontar-se com a moral e com as regras que nos constituem como pessoas envolve conflitos não só com terceiros e com quem se relaciona mas também da pessoa consigo mesma: é preciso questionar o sentimento de propriedade sobre quem se ama, aprender a lidar com o ciúme sem impedir a liberdade alheia, saber viver simultaneamente relações dotadas de características diversas. E aceitar relacionamentos que acabam juntando, direta ou indiretamente, mais de duas pessoas. No limite, a prática do amor livre pode levar à constituição de famílias diferentes do padrão dominante.
Já as leis brasileiras que regem a união estável entre parceiros que compartilham uma vida amorosa tornam o casamento monogâmico quase um fim obrigatório. Burlar tal compulsão depende da boa vontade libertária das pessoas envolvidas, confiando umas nas outras e evitando levar seus problemas aos tribunais. Contudo, nem sempre isso depende só delas, principalmente quando as uniões envolvem outras pessoas através de herança, divisão de bens, guarda de crianças, sobretudo caso a família conservadora de uma ou mais pessoas envolvidas não concorde com o amor livre.

Desse modo, parece que a luta pelo amor livre, assim como a luta pelo passe livre, além da estratégia da desobediência, também pode comportar a estratégia do reformismo e da mudança nas leis.
Leis que permitam a união estável entre mais de um cônjuge (formando um trisal, por exemplo), ou que permitam a criação de uniões estáveis de uma pessoa com duas ou mais (intersecção de dois ou mais casais) não são teoricamente impossíveis. Uma equação bem feita pode dar conta disso, considerando que, para a tradição liberal, o contrato faz lei entre as partes. Este é o caso da primeira união estável entre duas mulheres e um homem, realizada em agosto de 2012 no município de Tupã (São Paulo), considerada uma união poliafetiva. Em Recife (Pernambuco) já foi concedida a guarda compartilhada, com direito a registro e cuidado, de uma criança por três pessoas adultas, uma forma de adoção poliafetiva.
Essas reformas poderiam conter até um germe revolucionário, pois tais uniões acabariam gestando, contra a acumulação de Capital, modos de difusão de posses entre pessoas diversos daqueles da tradição ocidental moderna.
Se tantas alterações nas leis brasileiras de união civil têm sido feitas e aceitas no último punhado de anos (por exemplo, já é possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo), parece oportuno que praticantes do amor livre também defendam mudanças legais que lhes possam de algum modo favorecer: casar simultaneamente com mais de uma pessoa, por exemplo.

Enfim, passe livre e amor livre envolvem várias formas de ação direta e fazer-a-gente-mesmo, mudanças de comportamento na própria vida pessoal, pulando várias “catracas”.
O amor livre, especificamente, demanda um compromisso pessoal, uma mudança de comportamento e de crenças íntimas, uma transformação na vida doméstica mais intensa, mais direta e vivida. Tratar o doméstico como político, o íntimo como coletivo.
Pular catracas no transporte público, não pagar passagens, fazer catracaços etc. são ações diretas muitas vezes cotidianas, não sendo as únicas estratégias da luta pelo passe livre, outras que envolvem tanto o confronto direto com o poder público quanto a aliança com este poder, gerando as reformas que são o objetivo do movimento.
Quem ama livremente depende de uma prática diária intensa e pula “catracas” invisíveis, mas não menos duras: couraças e travas íntimas; moralismo; preconceito, maledicência e vigilância de vizinhos, família, colegas e a incompreensão de pessoas queridas. É uma luta que se realiza em si mesma: praticar o amor livre já é o amor livre. Aí as reformas são complementares, não essenciais.
O amor livre é tanto meio quanto fim de sua luta, não precisa esperar que o poder público tome uma atitude. A luta pelo passe livre se aproxima do amor livre quando transforma seus fins em meios, praticando formas gratuitas, coletivas, solidárias e libertárias de locomoção ou mudando as regras enquanto jogam o jogo.

Enfim, não são só umas ou outras mudanças nas leis. Lutamos para viver nossas vidas do jeito que quisermos. Seja para transitar livremente, seja para amar livremente. A luta pela liberdade é a mesma, uma favorece a outra. Pois é muito mais fácil visitar um amor que mora longe pegando um ônibus de graça do que pagando para isso…